domingo, 9 de dezembro de 2007

Com as Feras na Selva

A FERA NA SELVA, HENRY JAMES


A experiência na selva. Viver ali, algumas horas corridas junto com as feras de Henry James. Este foi o sentimento que fiquei ao concluir a leitura da novela A Fera na Selva. Um texto que alcança seu ponto alto independente da dor que sentimos, de nossa compaixão ou envolvimento com o desfecho da trama – pouco importa a ânsia se temos o belo. O livro narra idas e vindas de uma história de um amor impossível, sem que nunca se tenha a percepção imediata dessa impossibilidade. Lemos ao sabor do elegante e misterioso estilo jamesiano, rico na preparação das cenas, profuso em significados e inquietações.
O enredo. Um homem e uma mulher encontram-se em diversos momentos de suas vidas, lastimam outras tantas que poderiam ter vivido, avaliam, choram, lamentam, e com isso flutuam na sugestão de seus mínimos gestos, circulando pelo raro movimento do cenário. Os protagonistas da novela de Henry James vivem juntos um conflito que mergulha no indivíduo, descrevendo através de metáforas e símbolos algum sentido vago que possa nos apontar o caminho para compreendermos o desatino daquele envolvimento emocional. O amor em seu estado bruto. No limite desse jogo de encontros e desencontros, Henry James descreve um estado de loucura sem que a palavra loucura seja nos dada; o escritor demonstra o tormento sem que em nenhum momento tenha que explicá-lo, suas origens e motivações. Com isso, leva sua narrativa ao seu ponto máximo de desespero, sem nenhuma gota de sangue. Tudo é muito elegante. O conflito está no próprio ser humano.
Sozinho, atormentado por suas feras, um homem delira.
Recomendo a leitura de A Fera na Selva não apenas como um exercício de bela narrativa curta, mas por se apresentar como uma espécie de painel da insensatez humana, um manual em branco, um caminho pleno de significações a serem compartilhadas com o leitor. A este caberá desvendar o subtexto, as nuanças, o código a ser decifrado; como aquelas imagens que passam muitas vezes por nós e que ficam incompreendidas; como se o mundo fosse um objeto distante do nosso entendimento, perdidos aqui, nesta selva.

Edgar Aristimunho

4 comentários:

Ana Lucia disse...

"...Pouco importa a ânsia se temos o belo."

Só a arte consegue esta transcendência.

Bem, sua sugestão está acolhida por esta simples leitora, que já tem dois livros-presentes para se dar neste Natal.

Lehgau-Z Qarvalho disse...

Sendo “A fera na selva” tão boa leitura quanto a resenha a seu respeito, já é livro escolhido, comprado e consumido.


Prolfaças de excelente estréia blogadita, pois.

Edu disse...

Dêga,

a resenha: instigante. Leitura foi deliciosa!

O livro: vai competir com o sono no pós-jornada de trabalho paterno...

Blogaditando...

Abraço, Edu

Reimer disse...

Ficou tão boa a resenha que fiquei com vontade de ler!
Abs